O surfe está presente na Origem da minha vida. Filha de pais surfistas, cresci no mar e não consigo me lembrar exatamente a primeira vez que fiquei em pé em uma prancha. 

por Antonia Wallig

Mas, quando fecho os olhos, consigo voltar ao meu corpinho magrelo de criança, agarrada no cangote do meu pai,  sentindo o vento na cara e o brilho do mar refletido nos meus olhos,  enquanto deslizamos juntos pelas ondas de Torres, Maresias ou Floripa.  Acessar essa sensação da minha infância me faz lembrar de quem eu sou. 

Antonia Wallig ou Tuka Flores para os chegados. Arquivo pessoal.

Na nossa família ir surfar sempre foi o programa que todos topam, sem questionar. O surfe  nos une na diversão, mas também na maneira de encarar os momentos mais difíceis da vida.

Eu e meu irmão crescemos ouvindo as analogias  entre o surfe e nossas experiências cotidianas. Aprendemos que o mar está sempre em movimento e cada vez que chegamos em um pico novo é preciso avaliar as condições e  se aproximar das  pessoas locais, pois são elas que conhecem  a dinâmica  natural e social do lugar.  Aprendemos que tem dias que o mar está perfeito, mas se você não está integrado com ele não vai se divertir, e outros  que mesmo com mar “ruim” você sai feliz da vida por ter tomado uns caldos e dado  boas risadas. Aprendemos que a visão que temos da areia é muito diferente da que temos de dentro do mar, que depois de uma vaca, sempre vale a pena recobrar o fôlego e  remar de novo lá pra fora e que a natureza tem a sua forma incrível de nos mostrar tudo o que precisamos aprender.

Observar, respeitar, valorizar, agradecer, persistir, ter humildade,se equilibrar, se entregar e se integrar.

São tantos os ensinamentos que espelham a vida em si, que decidi que queria passar isso adiante. Minha vontade era juntar tudo o que faz sentido para mim e compartilhar com o mundo. 

Primeiro fui estudar Gestão Ambiental, depois  Pedagogia e Artes. Me tornei coordenadora de um projeto social de aulas de surf,educação ambiental e arte para crianças da escola pública em Florianópolis, dei aulas de surfe para pessoas com deficiência visual, que foi meu tema de mestrado e  realizei, junto com duas amigas, o projeto Rekombinando, uma viagem pela América Latina em uma kombi adaptada para ser uma escola-ateliê.

Atualmente  meu trabalho está na cidade, fazendo a gestão do Centro Cultural Vila Flores, em Porto Alegre, mas o surf está sempre presente. Ser surfista me traz muita liberdade, mas também um grande senso de responsabilidade. Sinto que esse movimento   infinito em busca das ondas, é também um movimento em busca de mim mesma, uma constante viagem para o meu interior, para descobrir quem sou e me tornar cada dia uma pessoa melhor. 

Projeto Rekombinando, uma viagem pela América Latina em uma kombi adaptada para ser uma escola-ateliê.

 É sobre essas aventuras e reflexões que vou escrever aqui, um espaço aberto para recordar  da nossa Origem através da relação com o mar.

Cada vez mais entendo o surfe como uma forma de me expressar e de  estar profundamente conectada à natureza, onde está toda a sabedoria cíclica da vida. Minha busca é aprender cada vez mais com Ela. Fica aqui o convite para mergulharmos juntos.