Neste sábado, 24, o sonho olímpico do surfe enfim será realizado. Integrar o programa olímpico ainda é o maior reconhecimento para um esporte. Para quem acompanhou os primeiros passos do profissionalismo brasileiro e mesmo mundial, é um momento histórico, de celebração. Nunca tanta atenção global estará direcionada para o surfe. Quem até hoje não sabe quem são Gabriel Medina, Italo Ferreira, Silvana Lima e Tatiana Weston-Webb, ficará conhecendo.

por Diogo Mourão

Em tempos tão pesados, porém, apenas a palavra celebrar já soa estranha. Ainda é difícil encontrar motivos para celebração em meio a milhões de mortos e um vírus ainda sem controle. E olha que estamos apenas falando do mundo. Se formos pensar só por aqui….

Os Jogos em Tóquio vão ocorrer, com sentimentos estranhos ou não. O surfe participa pela primeira vez e a Olimpíada pode ser o canhão que o esporte precisa para se fixar no mainstream do sportainment e atrair mais investimento de marcas globais. Dar um salto e ficar mais perto de esportes individuais muito mais ricos, como tênis e golfe.  Sobre como a essência do surfe sobreviverá ou se adaptará é assunto para outro texto.

Gabriel Medina durante treino fisico na base brasileira de Tsurigazaki. Foto Júlio César Guimarães/COB.

No Brasil o cenário é favorável. Como estamos cansados de saber, o brasileiro vive paixões momentâneas por esportes vencedores. O surfe é o esporte da vez, está em alta e deverá subir ainda mais de nível com as esperadas medalhas olímpicas. Pode até não acontecer, mas Medina e Italo são os mais cotados para fazer a final e existe forte pressão pelo ouro, tido como certo por quem não acompanha o surfe e não sabe que muita coisa pode acontecer num campeonato. Tatiana e Silvana correm com menos peso, mas boas chances de pódio. Para se ter ideia do tamanho do surfe e das expectativas, Medina e Silvana entraram ao vivo com Galvão Bueno durante cerimônia de abertura.

Parece um sonho. Comecei a escrever matérias sobre a possibilidade de o surfe integrar o programa olímpico nos anos 1990. Os principais argumentos contrários ao surfe sempre foram o número reduzido de países com a prática do esporte em alto nível e não ser um esporte universal, pois praticamente exclui os países sem litoral.  O mundo e o surfe não mudaram, mas a necessidade de as Olimpíadas dialogarem com público mais jovem, buscar novos públicos, abriu caminho para surfe, skate e escalada em Tóquio. Preparem-se, Paris-24 terá break dance.

Tatiana Weston-Webb. Foto de Júlio César Guimarães/COB.

Em um momento de marco histórico, entro novamente numa onda do tempo para lembrar de situações vividas em redações ao tentar dar mais espaço para o surfe.  Em 27 de novembro de 1991, Teco Padaratz venceu o Alternativa Surf, etapa do Circuito Mundial no Rio.  Com a linda foto do Teco no pódio com um mar de milhares de pessoas na Barra, rumei até onde ficavam os responsáveis pela primeira página pleiteando por espaço, pois naquele domingo o futebol era fraco.

Surfista não lê jornal?

“Surfista não lê jornal. E quando lê, não lê o Globo”, foi a resposta do editor ao meu pleito. Tive de me contentar com a primeira página do Caderno de Esportes e uma foto na Página 2, como prêmio de consolação.

Capa do Caderno de Esportes do Globo com a histórica vitória de Teco Padaratz no Alternativa de 1991

 

Não custa lembrar para a galera que vai descobrir o surfe agora: antes da Brazilian Storm o Brasil foi representado por uma boa geração de surfistas, liderada pela dupla Teco e Fábio Gouveia, e teve como maior destaque o terceiro lugar no ranking final de Victor Ribas, que até virou estátua em Cabo Frio (RJ).

Vinte anos depois da batalha perdida pela primeira página, já tinha saído da grande imprensa e estava no comando da comunicação da Etapa do Brasil no Circuito Mundial. Também com a praia cheia na Barra, Mineirinho venceu e assumiu a ponta do ranking de 2011. E, para alegria do assessor e do patrocinador, a foto de Mineirinho no pódio foi para a primeira página, provavelmente sem um diálogo como o de vinte anos antes.

Vinte anos depois, já não foi preciso brigar para ver o Mineirinho na primeira página do jornal.

Passados mais dez anos, às vésperas dos Jogos, o surfe está em tudo quanto é lugar da mídia, mesmo fora das páginas de esportes, principalmente por causa da polêmica sobre a não ida de Yasmin Brunet para acompanhar o marido Medina em Tóquio. Não vou entrar na discussão do mérito da questão novamente, mas o que mais incomoda nessa novela é o fato de o assunto ter ocupado tanto espaço que a estreia do surfe nas Olimpíadas ficou em segundo plano e o restante da equipe brasileira, meio esquecida.

Outro fator a lamentar é que a estreia do surfe não será em ondas perfeitas, clássicas, o que faria o espetáculo muito mais bonito e atraente. Ficou para Paris-24, que terá a disputa do surfe no Taiti.

Mas mesmo com esse clima de estranheza no ar, é hora de caprichar no café para torcer pelos brasileiros do surfe e dos outros esportes. Para nós não deverá ser difícil, pois já estamos acostumados a acompanhar as etapas australianas.