Passada a histeria coletiva entre alguns internautas entusiastas do surfe após a performance de Filipe Toledo em Pipeline, uma reflexão tomou conta de mim.

POR ALEXANDRA IARUSSI

Essa história com Toledo, que vem de alguns anos, guarda um ensinamento muito precioso para os que estiverem atentos e em busca de evolução.

Filipe Toledo atende aos fãs em Porto Rico. Crédtio: ISA / Pablo Franco

Ricardinho Toledo, pai de Filipe, já falou publicamente sobre o quanto seu filho tem receio de sofrer alguma lesão em uma onda cavernosa, sinistra e mortal como Teahupo’o. 

E esse episódio bate à porta da comunidade do surfe como um chamado para despertar para humanidade.

Despertar para a humanidade. Mas o quê cargas d’água estou querendo dizer?

Que essa história chega como um chamado para a comunidade do surfe ser mais humana. 

A história ainda está confusa? Fica mais um pouco, que o ouro está mesmo nesse arco-íris-surfístico-filosófico. 

Ou você ainda acha que filosofia não tem nada a ver com surf?

Segue o fio, porque para dropar a boa, é preciso estar desperto.

Estamos carecas de saber que um dos pressupostos para se tornar surfista profissional, é sustentar e lapidar habilidades incríveis e surpreendentes, superiores às skills ordinárias de 99% dos surfistas do mundo.

E que isso precisa ser feito em todo tipo de onda e condições, das mais clássicas às mais adversas possíveis.

Adicione mais alguns exponenciais, e, voilà: chegamos aos campeões mundiais de surfe.

Garra, disciplina, mindset e talento também entram, mas o foco aqui não é discutir do que são feitos campeões mundiais de surfe.

Estamos aqui para falar de humanidade. Qualidades de ser humano. Se tornar mais humano.

A real é que esse episódio de Toledo nos dá a chance de construir uma comunidade do surfe mais edificante. 

E para aprofundar um pouco nisso, a filosofia é crucial, ao contrário do que me disse certa vez um editor de site de surfe, pedindo para que eu parasse com filosofia… 

“Filosofia te ajuda a desenvolver autenticidade, ser você mesmo, ter seu centro, sua essência, permitir que seu ser, através de sua personalidade, dê seu recado ao mundo. A filosofia ajuda a isso, para que você não seja massacrado pelo rolo compressor do mundo,” nos conta a professora Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole, no vídeo abaixo que você precisa assistir. 

VÍDEO: https://youtu.be/NvZ4VZ5hooY

Então, criticar Toledo é assinar seu atestado de desumanidade. 

E, emprestando a teoria dos espelhos, do médico e psicanalista francês Lacan, de alguma forma, se você critica Toledo, está enxergando uma característica que existe ou já existiu dentro de você. 

Enfim, há quem argumente que um campeão mundial que não dominou ondas tubulares mortais simplesmente não pode ser campeão mundial. A partir da perspectiva do surfe competitivo, compreendo a validade desse ponto de vista, mas o objetivo desse texto não é dissertar sobre o que faz um campeão mundial, nem como lidar com diretrizes em prol de mais justiça no surfe competitivo. 

Afinal, Filipinho Toledo é imperfeito, e assim somos cada um de nós. 

Estamos aqui não por acaso e com certeza em uma jornada de auto aperfeiçoamento.

Integrar essa verdade é crucial para evoluir.

Por isso, toda vez que alguém usa sua complexa mente para encontrar argumentos para desmoralizar Filipe Toledo por ele não ter domado as ondas mais cascudas e tubulares, está depreciando os próprios valores e também a humanidade.

A comunidade do surfe perde e o inconsciente coletivo também. 
Enfim, quando você assistir ao vídeo da professora Galvão, compreenderá que para gerar os frutos mais elevados da vida, é necessário sacrificar banalidades e coisas inferiores, e deixar pegadas de amor, inteligência e vontade divina.

“A melhor coisa que podemos fazer por aqueles que amamos, é crescer como seres humanos.” – Lúcia Helena Galvão

Por isso, se você chegou até aqui, lembre-se sempre que o ouro está dentro de você.

Finalmente, sintetizando de jeito bem simples tudo que foi dito, uma frase do libanês Khalil Gibran:

“Todos nós deveríamos ser poços de enriquecimento dos dons da vida.”

Capiche?  

Alexandra Iarussi é comunicadora e herbalista, mãe e surfista, multicriativa que oferece soluções de comunicação e design especializados em surfe e cannabis em Jasmim Studio.